O seu ser repousava lúgubre, o corpo cansado acompanhava
a sua mente naquela que era a sua percepção de uma vida, levando a que,
consciente da brevidade do último suspiro, da última inalação, o único
arrependimento que sentia era de não ter feito.
Por breves segundos, percebeu com clareza, com aquela
clareza que acompanha a nossa verdade, que tinha perdido, tempo, sim tempo, essa
contagem da combustão da vida, com coisas insignificantes, pormenores,
detalhes, diferenças, regras ou leis e imposições.
Percebeu que tinha sido possível concretizar tudo, falhar
e voltar a tentar, concretizar e regozijar, que não havia reais limites para o
que fosse que desejasse viver.
Percebeu que o limite era ele próprio, ele personificado
nos outros, todos, ele enquanto sociedade, percebeu que foram as regras e os
valores da sociedade que o limitaram, que a mesma construção humana que garante
o desenvolvimento impede-o, conservado.
Percebeu que tudo o que não fez foi por seguir os padrões
regentes de uma sociedade, por decidir manter-se enquadrado no grandioso
meridiano ad norma.
Com a clareza que acompanha a nossa verdade percebeu que
não existem limites e que a sua vontade esteve sempre ali, a um passo, ao virar
da esquina da plenitude da realização, tivesse não seguido a norma.