Dito assim, a primeira imagem que surge na memória é de caos completo, dito assim remetemos o consciente para o estereótipo da destruição, uma invocação ao sinónimo da devastação e decadência da envolvente, disfuncionalidade dos sistemas de suporte à vida tal qual a conhecemos num padrão de normalidade.
Dito assim o que nos ocorre é a imagem de uma alteração da normalidade num período de tempo curto, tão curto que a percepção permite por justa posição identificar as mutações como uma realidade de tal forma intensa e diferenciada que consente uma classificação, num conjunto de características aceites como definição, destruição.
Mas, e se não for obrigatoriamente assim, se for preciso alargar o espectro do conceito de destruição?
E se a mesma alteração da normalidade da realidade ocorrer num período de tempo alargado, num período de tempo em que a consciência encontre dificuldade em comparar características e como tal dificilmente a enquadre no pressuposto de destruição?
E se os espaços entre as alterações da normalidade forem ocupados por mais ou menos longos compassos de espera, por períodos de nova normalidade, por sequenciais compassos de adaptabilidade, por destruições programadas de dimensão controlada?
Tudo começou no início do novo milénio, tudo se tornou visível no início do novo milénio e o primeiro passo, simbólico, foi dado com a destruição do comércio mundial com a efectiva destruição de duas torres, a arma utilizada, ao contrário do que se crê foi e é financeira, num paradigma em que a economia está assente sobre um substrato financeiro retirar esse suporte é concreta e controladamente condicionar e progressivamente destruir aquilo que constitui um jogo de forças alternativo à violência entre os povos.
No seguimento, observa-se todo um dispositivo de reformulação dos parâmetros de vida e civilidade a que os povos estavam habituados e até conquistado, desde a limitação das liberdades até a eliminação de direitos consagrados passando por invasões militares ou tecnocratas a soberanias, apropriação de recursos naturais ou energéticos, guerras permanentes e a percepção de um novo modelo de destruição está patente.
Depois surgiu outro simbolismo que em certa medida tem até o maior impacto, embora não imediato mas no contexo da caminhada do ser humano neste planeta, da continuidade do processo evolutivo e do conhecimento da sua relação no e com o universo, o abandono dos programas de exploração espacial, do universo, e até do eventual encerramento da estação espacial internacional, tudo isto um braço externo da determinação do Homem em conhecer-se, conhecer para além de si e vector determinante da explicita amplitude com que observamos o futuro.
Ora prescindir dessa ferramenta, dessa dimensão da condição humana, desse olhar para o desconhecido como factor de um presente construído a pensar mais além é abdicar desse mesmo futuro, resignar sem acrescentar o conhecimento por descobrir, tornar hermética toda uma espécie.
Por fim o simbolismo da paralelização prática, a adopção quotidiana das novas realidades como realidades assumidas, interiorizadas, não contestadas, como vemos expresso em acontecimentos como os Jogos Olímpicos, em que a realização de um evento que celebra simbolicamente a competição pacífica entre povos através do desporto, reveste-se desesperadamente de um anacrónico e paradoxal significado de medo e de impulso bélico que acaba por se tornar na militarização do dia-a-dia.
Juntemos os significados e resultados de todas as alterações da normalidade, condensemo-las num período de tempo bastante mais reduzido e vejamos se não é predicativo de destruição total.